Me ensina a não andar com os pés no chão
Para sempre é sempre por um triz
Aí, diz quantos desastres tem na minha mão
Diz se é perigoso a gente ser feliz
Tem muita gente que acredita que os destinos estão traçados. Nina levantou cedo querendo uma solução para os seus problemas. Ninguém poderia ajudá-la. Lembrou da música de Edu Lobo e Chico Buarque que fala de Beatriz, a moça que talvez acredite em outro país. E a frase que não sai da sua cabeça, na verdade uma pergunta: é perigoso a gente ser feliz? Acho que sim, ela chegou a conclusão.
Mas tinha que sair para trabalhar e essas idéias logo fugiram da sua cabeça. Por que ficar pensando nelas? Bola pra frente.
terça-feira, 13 de março de 2007
quinta-feira, 8 de março de 2007
mudança
"Acabou?" "Não, ainda tem uma moça aqui". Nina estava encostada na janela. Queria ter dormido, mas o balanço não deixou. "É que ela está escondida aqui". Até então, não havia percebido que falavam dela. Mas, 'o escondida' chamou atenção. Quem estava escondida? Só podia ser com ela. Deu um sorriso, um pouco amarelo é verdade, mas foi uma porta de entrada: "vai descer na faculdade?" Ela ia. Mas não ia à faculdade. Enfim, era o ponto de referência. "Podemos lhe deixar na esquina? Daí a gente vira logo ali, facilita pra gente". Tudo bem, ela respondeu. "Não fica muito longe". Nina não estava preocupada, conhecia ali como a palma da mão.
Ele fez cara de cansaço. Já guardava tudo em uma mochila preta. "Senão temos que dar toda a volta". Devia ser a última 'viagem', pensou ela. Certeza que o motorista queria ver o jogo. O radinho de pilha ficava cada vez mais alto lá na frente. Enfim, o ponto alternativo. "obrigado moça", o cobrador. O motorista, nada. Ela desceu. Achou curioso ele agradecer. Difícil nos dias de hoje. O ronco do motor ficou mais alto, digno de um último passageiro. Uma espécie de comemoração. Tarefa cumprida e comprida. Nove da noite. Deviam estar ali há muito tempo, enfim. Do Terminal Bandeira até o Ceasa, uns longos minutos.
Nina lembrou da última conversa de um senhor de bigode com o mesmo cobrador. "Não dou para esta função não. Este tipo de trabalho, tô fora". Havia trabalhado um ano e meio como cobrador. "Vi uma cena um dia que mexeu comigo. Nunca mais". Nina estava torcendo para que ele contasse. Mas, nada. Só afirmava: "mexeu muito comigo". Rapaz, conte, pensou. Contou: "quando os ônibus eram pior que agora, o pessoal ficava pendurado. Eu sei o que é isso. Moro aqui em SP há 29 anos". Nina, queria perguntar: e de onde o senhor veio? Mas não tinha intimidade, aliás, acabara de ver o sujeito. Continuou a espiar a história. Um filme na cabeça. "Vi um rapaz trabalhador ser puxado por um policial. Só porque ele estava pendurado no ônibus. O policial puxou com tanta força que o rapaz caiu. Todo mundo ficou olhando, revoltado por dentro. A marmita do moço abriu, sabe aquelas quadradinhas de alumínio, então, abriu e pularam dois ovos e todo o arroz no chão. De tão simples, nem feijão tinha. Aquilo me revoltou de uma tal maneira que resolvi nunca mais ser cobrador. Pra ficar vendo isso?"
Nina, pensou: será que o cobrador resolveu agradecê-la depois de ouvir esta história? Tocante. Talvez tivesse mudado algo nele. Gentileza gera gentileza, pensou. Lembrou da música do cd da Marisa: "apagaram tudo, pintaram tudo de cinza, só ficou no muro, tristeza e tinta fresca".
Que bom que chegara em casa...
Ele fez cara de cansaço. Já guardava tudo em uma mochila preta. "Senão temos que dar toda a volta". Devia ser a última 'viagem', pensou ela. Certeza que o motorista queria ver o jogo. O radinho de pilha ficava cada vez mais alto lá na frente. Enfim, o ponto alternativo. "obrigado moça", o cobrador. O motorista, nada. Ela desceu. Achou curioso ele agradecer. Difícil nos dias de hoje. O ronco do motor ficou mais alto, digno de um último passageiro. Uma espécie de comemoração. Tarefa cumprida e comprida. Nove da noite. Deviam estar ali há muito tempo, enfim. Do Terminal Bandeira até o Ceasa, uns longos minutos.
Nina lembrou da última conversa de um senhor de bigode com o mesmo cobrador. "Não dou para esta função não. Este tipo de trabalho, tô fora". Havia trabalhado um ano e meio como cobrador. "Vi uma cena um dia que mexeu comigo. Nunca mais". Nina estava torcendo para que ele contasse. Mas, nada. Só afirmava: "mexeu muito comigo". Rapaz, conte, pensou. Contou: "quando os ônibus eram pior que agora, o pessoal ficava pendurado. Eu sei o que é isso. Moro aqui em SP há 29 anos". Nina, queria perguntar: e de onde o senhor veio? Mas não tinha intimidade, aliás, acabara de ver o sujeito. Continuou a espiar a história. Um filme na cabeça. "Vi um rapaz trabalhador ser puxado por um policial. Só porque ele estava pendurado no ônibus. O policial puxou com tanta força que o rapaz caiu. Todo mundo ficou olhando, revoltado por dentro. A marmita do moço abriu, sabe aquelas quadradinhas de alumínio, então, abriu e pularam dois ovos e todo o arroz no chão. De tão simples, nem feijão tinha. Aquilo me revoltou de uma tal maneira que resolvi nunca mais ser cobrador. Pra ficar vendo isso?"
Nina, pensou: será que o cobrador resolveu agradecê-la depois de ouvir esta história? Tocante. Talvez tivesse mudado algo nele. Gentileza gera gentileza, pensou. Lembrou da música do cd da Marisa: "apagaram tudo, pintaram tudo de cinza, só ficou no muro, tristeza e tinta fresca".
Que bom que chegara em casa...
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