segunda-feira, 13 de julho de 2009

por 8 fios

Nestes cinco meses o que mais ouvi foi: "você teve muita sorte". Parei para pensar diversas vezes o que seria esta tal sorte tão citada. Descobri que a sorte recebida e agarrada com todas as forças foi a de poder continuar a minha vida do jeito que ela sempre foi. Sim. Eu pude ter a sorte de continuar a traçar minha vida do jeito que imaginava que ela seria. Por muito pouco, pouco mesmo eu poderia ter todo o meu percurso mudado, meus sonhos adiados, minha vida totalmente modificada. Parei só por alguns meses e tive a chance de valorizar tudo o que tenho, tudo que posso fazer, olhar para trás e agradecer.

Sempre tive dificuldade em acreditar em Deus. Minha família vive este dilema há muitos anos. Desde que duas pessoas muito importantes para nós foram embora muito cedo – com 50 e poucos anos – é que alguns passaram a não acreditar muito nesta justiça divina. Mas, acredito que comigo ele foi justo. Acho que não merecia ser tetraplégica aos 27 anos.

Hoje é um dia importante. Comum, certo. Mas foi o último dia da minha fisioterapia. Liberada pelo médico, um anjo que apareceu na minha vida, Dr. Jefferson Alves Galves, e pelos queridos fisioterapeutas que me aguentaram por cinco meses, Sabrine e Rodrigo, do H. São Luiz, pude ter meu momento de alegria renovada, abraçar a todos que me ajudaram muito todo este tempo e mais uma vez agradecer. Desta vez pessoas de carne e osso, profissionais competentíssimos que me apoiaram por todos estes longos meses de recuperação.

:: Agradeço, saio pela mesma porta de sempre. Talvez pela última vez. Pelo menos com aquele sentimento. Tudo é branco, limpo. No elevador as pessoas dizem bom dia. Seguram a porta, são prestativas. Subo três andares. Tudo parece se abrir para que eu saia, tranquila. Atravesso a porta de vidro, digo bom dia ao segurança. Paro. Era o meu médico. Será? Estava conversando com uma paciente. Com o dreno, o carrinho do soro, ela, sentada, ouvia as instruções. Cumprimentei. Ele abriu um grande sorriso. Virou-se para mim e disse a ela: "a Mariana também fez uma cirurgia na cervical, olha como ela está bem!" Eu olhei a menina sentada, parecia que estava me vendo ali. Aliviada confirmei: "como estou bem!" Ele abriu outro grande sorriso. Me despedi. Virei com os olhos mareados. Atravessei o portão verde. O sol bateu no meu rosto. Valorizei aquela caminhada como nenhuma outra na minha vida. Acho que foi a mais bonita que já fiz.

Um comentário:

Unknown disse...

Nina,
Meu nome é Eduardo Pereira da Silva, sou paciente do Dr.Jefferson e faço minhas as suas palavras, aliás, muito bem colocadas e preciosas nas próprias observações.
Uma ótima idéia sua de publicar este sentimento, não tive a mesma idéia, mas, tenho certeza que cada vez que faço minha "revisão" e entro andando no consultório dele, sinto a satisfação em seu olhar.
É um melhor amigo sempre presente nas minhas preces, o único que não tem nenhum grau de parentesco e sinto um grande carinho como se fosse um Irmão.
Parabéns pela sua recuperação.
Aproveite bem essa bênção.
E lá vamos nós, em pé outra vez...
Abraço.
eduardo.pereira@totvs.com.br